19.8.10

Matéria/Chet Baker

“Chesney Henry Baker Jr. ou simplesmente Chet Baker (1929-1988) foi o Miles Davis branco. Não só em termos de sonoridade e pungência melódica, soprando o trompete ou o flugelhorn, mas também de culto paradoxal do herói que se deixa tragar pela vida, na base do "Let’s Get Lost", do mesmo modo que Scott Fitzgerald, Bix Beiderbecke ou Charlie Parker. Entre o “James Dean” que apaixonava as teenagers dos anos 50 e 60 e o erodido rosto do dependente de drogas pesadas que despencou para a morte do segundo andar de um hotel em Amsterdã em 13 de maio de 1988, houve muitos Chets. “Ele surgiu para nós como um mistério e foi-se como um mistério” – escreveu o discógrafo dinamarquês Hans Lerfeldt.


“Na primavera de 1959, meu caso de Nova York veio à tona e peguei seis meses de prisão na ilha de Rikers. Passei 10 dias na enfermaria, antes de ser integrado à “população”. Recebi a tarefa de instrutor no departamento de música. Havia lá uns outros 12 músicos. Ficávamos o dia todo no ginásio – ensaiando ou jogando basquete. De noite na ala das celas, jogávamos pôquer, xadrez, bridge, líamos ou assistíamos a uma dupla de grandes dançarinos; lembro-me de que um deles era chamado de “Baby Lawrence”. Fui libertado em quatro meses (bom comportamento) e parti imediatamente para a Europa. Halema e Chetie foram comigo.

Participei do Festival de Comblain La Tour, e viajei para Itália. Comecei a tomar Jetrium, um remédio alemão que não precisava de receita. Voava de Milão para Munique sem bagagem, enchia os bolsos do meu pesado sobretudo com caixas de Jetrium injetável (efeito duplo, 13,5 miligramas por centímetro cúbico) e voltava à Itália. Jetrium era a coisa mais próxima de heroína que eu havia encontrado mas logo fui ficando resistente à droga pois estava usando de 1000 a 1200 miligramas por dia. Fiquei em péssimo estado – branco como giz, sem fome e tendo calafrios terríveis e frequentes. Meus amigos me convenceram a procurar um médico. Depois de me examinar e analisar o doutor me deu quatro ou seis meses de vida se continuasse a tomar Jetrium. Falei com o pessoal do lugar onde estava trabalhando, chamado Santa Tecla e internei-me na clínica de Villa Turo em Milão para uma sonoterapia. Dormi durante 7 dias, alimentado, intravenosamente, por enormes garrafas penduradas em cima de mim. Passei a me sentir muito bem e consegui – com a ajuda do consulado americano – sair trinta dias antes do previsto. Retornei ao Santa Tecla e certa noite conheci Carol.

Ela trabalhava no Olympia, um dos maiores clubes do mundo (1600 lugares) como uma das quatro apresentadoras (cada uma anunciava um segmento do show). De vez em quando eu pegava meu Alfa e corria para o Olympia, entre os sets, só para zanzar entre os bastidores. Era uma coisa de louco! Havia um montão de moças indo e vindo, escassamente vestidas. Era o máximo! Gamei por Carol, e ela deixou o show para viajar comigo. Os jornais italianos fizeram a maior fofoca comigo e Carol. Halema mandou Chetie para a casa dos meus parentes e ficou me seguindo por uns tempos. Tínhamos cenas terríveis nos clubes quando ela aparecia.
Passei a procurar médicos diferentes a cada semana para obter receitas. Tinha um bom médico logo do outro lado da fronteira, na Suíça. Mas procurava manter meu vício sob controle. Quando estava trabalhando no La Bussola, um clube bacana e caro, de alto nível, na praia de Focette, a menos de dois quilômetros de Viareggio, conheci o dr. Lippi Francescomi. Ele era diretor de uma pequena clínica em Lucca. Instalei-me na Clínica Santa Zita e fiquei tomando grandes doses diárias de vitaminas e outros medicamentos, mais doses decrescentes de Palfium.

Nessa época, estava ficando muito difícil me picar – as veias, baleadaças, estavam desaparecendo. O dr. Francesconi levou-me ao clube todas as noites, esperava que eu tocasse e voltava comigo para a clínica. Carol e eu nos encontrávamos noite após noite. Tínhamos um quarto numa pensione, a Villa Gemma. O gerente tentava me ajudar. Antes do meu retorno à clínica; tinha um médico que receitava Palfium para mim, em seu nome. Um outro bom amigo, um advogado em visita à Itália, também me arranjava receita. Uma vez, tive de ir ao clube durante o dia. O dr. Francesconi não podia sair comigo; aluguei um Fiat e fui para a praia. Parei num posto de gasolina a fim de me aplicar uma injeção. Demorei uns quarenta e cinco minutos para fazer a cabeça. Havia acabado de me recuperar e já ia sair, quando bateram na porta. O frentista chamara a polícia. Tive de ir com eles até a delegacia. Ligaram para o dr. Francesconi, que explicou a minha situação e me levou de volta à clínica.

No dia seguinte, a manchete do jornal local foi CHET BAKER PRESO EM BANHEIRO DE POSTO DE GASOLINA. A notícia ia em frente: a polícia teria derrubado a porta, o banheiro estava coberto de sangue etc etc. Um jovem procurador chamado Romiti, depois de ler a reportagem abriu uma investigação. Depois de checar todas as farmácias da área e examinar todas as receitas de Palfium, prendeu meu amigo e advogado Joey Carani; o gerente da pensione; um médico de nome Bechelli; e o dr. Francesconi. Viajou então para Milão a fim de interrogar Halema. Mas como estava fora de sua jurisdição, mentiu para ela, pedindo-lhe que fosse até Lucca para um minucioso depoimento. Halema foi e assim que chegou, foi presa também. Naturalmente, fui o primeiro a ser encarcerado. Puseram-me na enfermaria por dez dias e depois num quarto isolado, onde passei os seis meses seguintes. Ninguém falava uma palavra de inglês.

De noite, eu podia ouvir Halema do outro lado do pátio, chorando e chorando. Fomos julgados seis meses depois. Halema, Joey, Francesconi e o gerente do Gemma foram inocentados. Só eu e Bechelli continuamos presos. Becheli pegou dois anos porque me cobrava dez mil liras por receita e eu dezoito meses por uso ilegal. Apelamos, três meses depois das sentenças: o médico foi libertado e a minha pena reduzida para quinze meses. Carol ficou na Itália até o fim do julgamento acompanhada da mãe e depois as duas voltaram para a Inglaterra. Ela me escrevia diariamente. As cartas chegavam até nos domingos. O capelão da prisão, padre Ricci era encarregado de ler toda a correspondência que eu recebia ou enviava. Assim é que as cartas que Carol recebia eram todas riscadas com tinta preta. Cheguei à conclusão de que aquele padre bobo censurava quase tudo ao acaso, para não admitir que não sabia ler inglês. Ele também arrancava as páginas com fotografias da Playboy, que Carol eventualmente me enviava. Passado o julgamento, deixaram-me trabalhar na oficina de encadernação de livros. O único ocupante do lugar era um combatente da resistência iugoslava, um baixote que sobrevivia, desde o fim da guerra, fazendo-se passar por oficial, penetrando em bases militares e surrupiando armas e munições. Ele estava preso há quarenta e quatro meses, à espera de julgamento.

Jogávamos xadrez o dia todo ao mesmo tempo em que ele restaurava e encadernava livros. Eu ficava só olhando. À noite, ele costumava cozinhar um panelão de molho de espaguete num fogãozinho elétrico ilegal, que ao ser ligado, fazia cair a luz na prisão toda. Acabei ficando íntimo de dois guardas. Um deles, um tal de Peccora, deixava eu ficar sozinho com Carol na sala de visitas. Era ótimo. Duvido que alguém possa ter idéia de como é bom um pouco de sexo até ficar enjaulado por alguns meses. Os guardas acabaram descobrindo nosso fogãozinho e minha missão passou a ser a de providenciar comida e outras encomendas dos presos. Semanalmente Carol mandava-me entre quinze e vinte livros e eu lia à beça, até altas horas da noite com ajuda de minha lâmpada de cinco watts. Eu tinha o meu trompete e tocava algumas horas por dia. Escrevi trinta e duas músicas e o tempo passou rapidamente. Quando fui solto, falava italiano fluentemente e já havia sido sondado ainda na prisão por uma companhis cinematográfica de Roma. Assinei um contrato, cedendo-lhes os direitos de um filme sobre mim para o qual eu faria a trilha sonora. Recebi um adiantamento de 3000 dólares com a promessa de ganhar um total de 25000 quando o filme estivesse pronto. O mesmo jornal que publicou minha prisão com estardalhaço deu também destaque à minha soltura. Os fotógrafos foram atrás de mim e de Carol, clicando suas máquinas centenas de vezes.. Muitas dessas fotos saíram nas revistas de escandâlos italianos com histórias fantasiosas. A RCA italiana enviou a Milão um representante para assinar comigo um contrato de gravação de alguns daqueles temas escritos na prisão. As letras seriam escritas depois. Eu e Carol fomos para Roma num novo Alfa SS, e ficamos num pequeno hotel em Parioli.

Vagabundeamos durante algum tempo depois da sessão de gravação à espera do que ia acontecer com o filme. Não deu em nada. E voltei ao trabalho na Itállia. Contratei René Thomas e Bobby Jaspar para o meu conjunto. Eram grandes instrumentistas mas detonados pela droga. Na época Bobby estava usando Ritalin e René andava sempre atrás de heroína. Quando tocamos num clube de Nápoles algum filho da mãe furtou meu instrumento durante um intervalo. Imaginei que fosse porque costumavam me chamar de “Trombo Doro” e o cara que levou o trompete...deve ter achado que ele era mesmo de ouro bruto. Os sete meses seguintes foram bons pra mim. Oriana Fallaci escreveu uma grande matéria na L’Europea e apareci num filme italiano, Ulatori Alla Sbarra, em que fazia o papel de um malandro que ocasionalmente, despertava de sua letargia para cantar uma música – quando não estava rodando por Roma em uma Vespa. Em 1961 teve início uma nova onda no cenário mundial de Roma. Em muitos restaurantes apareciam poetas recitando suas novas obras, às vezes com acompanhamento de flauta ou de percussão. Nunca entrei muito nessa onda. Fiz várias trilhas sonoras para documentários produzidos pelo governo italiano, alguns com trompete e percussão, outros só com trompete. Eu simplesmente ficava vendo o filme rodar e tocava o que me viesse á cabeça. Ao retonar a Milão, Nando Lattanzi arranjou-me uma noite de jazz no Olympia que foi um enorme sucesso....”

Textos retirados do livro “Memórias Perdidas”, por Chet Baker.

Matéria encontrada em> jazzmanbrasil

 

Link>Download  - Chet Baker “Holiday” (1965) 

1 comentários:

Alienação disse...

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PAREBENS LENO!!