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23.8.12

Matéria: Hail To The Thief - Documento do seu tempo



A constatação desconsoladora de um mundo de cores cada vez mais sombrias e transbordando referências por todos os poros - como uma engrenagem psicodélica , indomável e onisciente - marca o regresso dos cabeças de rádio aos seios de um mundo doente.

O espaço onde – depois de passarmos pela porta da melodia – e entrarmos num universo de sensações moleculares pode ser vislumbrante e pertubador. Temos essa certeza já nos primeiros segundos de Hail To the Thief. Ao plugar da guitarra somos arremessados numa bolha indivizível  que vai crescendo aos poucos, nervosa - como o mundo em quem vivemos pós-11 de setembro - como o cotidiano e uma manhã qualquer. A matéria viva se dilata em dimensões inimagináveis, cada fragmento de esparros e soluços fogem do controle e da gravidade – essa há muito tempo subvertida pelo grupo de Thom Yorke e Jonny Greenwood – mentores de um som futurístico profundamente odisséico num lamaçal sintético visionarissimo e sobretudo urbano. Como aliens indefiníveis que passeiam pelas ruas com câmeras fotográficas - c0m olhos de crianças - para futuras análises não só do mundo mas de si mesmo. Cada metro quadrado do sexto rebento produzido pelos rapazes de Oxford respira a incerteza certeira que a máquina – O grande irmão de Orwel – como uma vírus – penetra nos poros dos nossos gestos quase involuntários e vai criando - como um embrião mutante - a esquizofrenia materialista  e ditando a  ordem dos passos dos pensamentos e fundido-se em nossas artérias engessando e domando a natureza instintiva e porque não imaterial e vívida de cada um em meio a estrutura erguida em suas 14 faixas definitivamente acima do padrão de Nigel Grodich - o mítico sexto membro do grupo.

Como disco Hail to the thief foi arremessado na categoria de álbum que reúne um pouco de cada uma das obras do grupo mas como disco, Hail to the thief concentra muito mais que um apanhado de referências próprias. Embarcações flutuantes para a lua e delírios de anjos desabando, tesouros inconfessáveis de raras melodias e fusões impensadas de jazz eletrônica e experimentalismos com assinatura própria, transforma o petardo num disco chave.

Não só isso. As canções foram submetidas a intensas experiências sensoriais e ao calor e afago de um público sedento. Um disco de uma banda que arrisca rupturas rítmicas e calendoscópios espaciais, num verdadeiro artefato de percepções. A tarefa árdua é traduzir cada centímetro quadrado. E esse compartilhamento de informações entre artista e ouvinte deve ser paciente e juntar cada pedaço e montar o mapa dos sentidos requer aos desavisado e para fãs antigos que esperavam vida fácil (após os quebra cabeças Kid A e Amnesiac) um tempo de diluição mais paciente nas veias da sensibilidade.

As referências passam pela literatura política de Orwel, Deleuze, Guy Debord à "krautrokces" nervosas de Neu e Kraft e pelos universo concretamente virtual de Four tet e o jazz alien de Alice Coltrane. Ouvimos mais uma vez  o tenebrosono instrumento eletrônico da década de 20 ( Ondes Martenot) despejando nevoeiros sobre a tela, os clássicos xilofones transformados em rádios transmissores emitindo mensagens secretas à outras galáxias, palmas ouvidas em outras dimensões, tambores ancetrais do futuro e linhas de baixos indecrifráveis montam e remontam uma obra inenarrável que agride com a passividade poeticamente inerte de Thom Yorke e  acalma como uma demente chapação subversiva entre arte e o cotidiano surreal não menos real e  nos perdemos em meio a indefinições auditivas atemporais.

Mesmo que não tenha agradado à banda – muito pela correria da gravaçao inconfessada em poucas semanas  e pelo número “exagerado” de faixas – um abuso de artistas exigentes e sempre insatisfeitos - o mundo pessimista e intimista se espalha em verdadeiros submundos erguidos nos becos e esquinas do tempo.

(Thom Yorke) O ser atormantado é apenas o fio condutor que não conduz e sim é conduzido para as crateras do que poderia ter sido e jamais aconteceu -  Um mundo de cores mais consoladoras e um início de século esparançoso e linear? mas não. Respiramos o cansaço juvenil e o medo onírico do presente, como lobos devorando nossa própria infância nos sentimos constrangidos e renegados por nós mesmos e acreditamos que tudo continuará do mesmo jeito ou pior. Não, Hail to the thief não é um disco pessimista.  O mundo é a matéria prima – e mesmo que isso não seja feito para deixa-los felizes – pelo contrário certamente – a obra nasce dessa carcaça de sonho – desse bálsamo ácido - desse quadro tão íntimo e confuso que ao mesmo tempo riscamos - fazendo arte (?) e produzindo vida e que as cores já não fazem muito sentido e  haveria de ter?.

Hail to the thief é o parto – expelido pela alma – do próprio mundo – cada elemento dele – célula sonora que divide-se em dimensões sensoriais se adaptando ao tempo e nós a ele – é a materialização hologrâmica – como um espelho turvo – de nós mesmos. Um obra que servirá como documento histórico do papel que a visão de um artista, sobre o  tempo em que viveu e como isso o atinge irreverssívelmente, pode definiar sua arte  e sua atemporalidade.

Hail To the Thief é a prova - Definitiva - que estamos no tempo onde 2+2 é 5...
Mais um trabalho  do  quinteto para ser discutido interminavelmente pelas próximas gerações.

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Para Ouvidos Entorpecidos por: Noam Chomsky, Gilles Deleuze, 1984, Can, Four Tet.


Link; Download

28.9.11

Radiohead / TKOL RMX 1234567 [2011]

CD 01
01 Little By Little (Caribou RMX)
02 Lotus Flower (Jacques Greene RMX)
03 Morning Mr Magpie (Nathan Fake RMX)
04 Bloom (Harmonic 313 RMX)
05 Bloom (Mark Pritchard RMX)
06 Feral (Lone RMX)
07 Morning Mr Magpie (Pearson Sound Scavenger RMX)
08 Separator (Four Tet RMX)

CD 02
01 Give Up The Ghost (Thriller Houseghost RMX)
02 Codex (Illum Sphere RMX)
03 Little By Little (Shed RMX)
04 Give Up The Ghost (Brokenchord RMX)
05 TKOL (Altrice RMX)
06 Bloom (Blawan RMX)
07 Good Evening Mrs Magpie (Modeselektor RMX)
08 Bloom (Object RMX)
09 Bloom (Jamie xx Rework)
10 Separator (Anstam RMX)
11 Lotus Flower (SBTRKT RMX)

 

dOWNlOAD

15.6.11

Radiohead - 10 de anos de AMNESIAC

No dia 04 de Junho de 2001 o Radiohead lançava seu quinto rebento de estúdio, um dos discos mais instigantes da nossa geração, desapontava fãs da fase mais rock da banda mas continuva as explorações psicodélicas do seu irmão de 2000.

 

"Eu acho que eles são gêmeos separados no nascimento, realmente," diz o baixista Colin Greenwood.

 

Amnesiac é o disco que mais ouvi até e hoje e sempre soa novo, futurístico, as vezes insuportável, hermético até os ossos, Yorke afirma que é como um rio do esquecimento para memórias que tendem a deixar cicatrizes. Ou como achar um baú debaixo da cama e encontrar mapas, fotos antigas, onde temos a sensação de uma estranha nostalgia.

 

Quando ouvi pela primeira vez os beats quebradiçamente metálicos de Pack Like Sardines In A Crushed Tin box, tive a certeza que nunca tinha ficado tão fascinado com uma banda contemporânea quanto fiquei naquele instante. A descida em queda livre de um penhasco rumo ao rio do esquecimento de Pyramid Song é uma das obras surrealistas mais soberbas da nossa geração. Mas Amnesiac não veio pra agradar. Ele pode ser áspero, sufocante, quem tem a melodia clássica com refrão como seu padrão de qualidade, encontrará no disco uma antítese. É um disco que não se deixa compreender facilmente, é curto, quando você começa a pensar que está desvendando seus quebra cabeças, ele termina num Jazz embriagada com cores marcianas em Life Glasshouse e te obriga a vomita-lo ou voltar a estaca zero.

Jazz é uma das bases para a construção minimalista do trabalho, ele junta-se a obsessiva fascinação de Thom por eletrônica cabeçuda experimental e a aproximação de Jonny das orquestrações incomuns de Pedenrick. Soma-se a isso a influência do krautrock. Os britânicos realizaram uma ousada e instigante ruptura com sua geração, a linha definitivamente rock estava superada e um percurso pelas profundezas da alma humana em experimentações desenfreadas chegava em seu pico, Radiohead em Amnesiac é uma banda no auge da sua inovação.

 

10 anos depois, o disco permanece uma incógnita. Viciante para alguns, intragável para outros. Amnesiac é um dos discos mais singulares já lançados por uma banda de rock. Sua textura impressiona, aliando uma técnica apurada, lapidada com instrumentações carregadas de linhas, efeitos, tocados como se eletrônico fosse, capaz de confudir o ouvinte mais superficial que choca-se com camadas e mais camadas de devaneios de arranjos por vezes esquizofrênicos.

Há eletrônica mas essa alia-se há construções de guitarras soando como rios fluindo em nossas mentes, como os dedilhados de Knives Out ou a base de guitarra arrastada no jazz space de Dollars Cents ou até nos riffs perturbadores de I Might Be Wrong, um verdadeiro hino da banda. Um disco com fluidez eletrônica que na verdade é orgânico, como um embrião se debatendo numa capsula rumo ao esquecimento para uma nova vida.

 

Yorke disse:

"Eu li que os gnósticos acreditam que quando nascemos somos obrigados a esquecer de onde viemos, a fim de lidar com o trauma de chegar nesta vida. Eu pensei que este era realmente fascinante. É como o rio do esquecimento . Pode ter sido gravado ao mesmo tempo ... mas vem de um lugar diferente, eu acho. Parece que encontrar um velho baú no sótão da casa de alguém com todas essas notas, mapas e desenhos e descrições de ir a um lugar que você não se lembra . É o que eu acho que de qualquer maneira. "

 

 

Para quem aprecia esse petardo, 10 anos ainda é pouco para desbravar todos os rios, todos os becos, a literatura as vezes mórbida de Thom Yorke, a arte de Stanley nunca foi tão cinzenta, os caminhos nunca tiveram tantos nevoeiros, Amnesiac é uma obra única, daquelas sobretudo, ATEMPORAIS.

16.4.11

Radiohead EP - ‘Record Store Day'

 

 

Em comemoração ao dia da loja de vinil, os Radioead lançam um EP, um dos mais aguardados lançamentos das comemorações.

Assim como cometeram o “crime” de deixar de fora Go Slowly do alinhamento do In Rainbows a banda volta a cometer o pecado de não incluir uma belezura radiohediana chamada Supercollider. Thom canta um certa reclusão, um desejo de isolamento?.

Já “The Butcher” busca a variação ritmica já pensava em The King Of Limbs, há pouca visibilidade para Ed, Jonny, Phil, Colin, mas eles estão lá, como sombras a beira do rio, enquanto Thom Yorke afoga-se em mais uma bela canção que ficou de fora mas com a qualidade já sempre esperada.

 

Download

 

Para ouvidos entorpecidos por: The King Of Limbs, Massive Attack, R.e.m

 

29.3.11

22.3.11

Especial Radiohead – 2 anos de show no Brasil

O inesquecível show que estivemos 2 anos atrás.

Para comemorar o dia 22 de Março (aniversário do show do Radiohead em São Paulo) eu o Lucas (do blog Alienação Rock) preparamos um top de aberturas e finais de discos (dos oito discos da banda) e um top 10 das melhores guitarras da discografia.

Aberturas de discos sempre foi uma especialidade delicada e cara aos Radiohead (quem é fã sempre discute isso). Mas fazer um top do Radiohead sempre é difícil, então serve mais como diversão.

Por João Leno Lima

Aberturas.

8º – Planet Telex (The Bends, 1995)

Um teclado que lembra soturnos sons de vento ergue-se do âmago do silêncio e espatifa-se em camadas de violões e guitarras na tensa abertura de The Bends. Um clima perfeito para um dos discos mais sensível da banda, Thom canta que tudo está quebrado, todos estão quebrados, e somos submergidos na montagem dos cacos de um disco clássico.

7º – You (Pablo Honey, 1993)

Aqui se inicia uma das grandes discografias de uma banda de rock em todos os tempos. As guitarras intensas rasgam a melodia com a voracidade juvenil de um Jonny prodigioso, que começa a tomar forma de gênio, enquanto thom grita que está tudo pegando fogo, canção rara da banda.

6º – 15 Step ( In Rainbows, 2007)

A cada quinze passos vem o mais puto tropeço, versa Yorke em meio a guitarra jazz de Jonny e a bateria krautrock de Phil. A canção abre o já classudo IR, sua urgência desequilibrada torna uma das canções com um dos arranjos mais experimentais da discografia.

5º – Everyinthing Right Place ( Kid A, 2000)

O teclado em espiral cyborg suge dos meandros dos sonhos mais vertiginosos de Thom Yorke, com mágicos seqüenciadores, ouvimos um delírio urbano numa desolação fria, que imprega a inconsciência como seres alienígenas inclassificáveis,numa das grandes canções da década passada.

4º - 2+2= 5 (Hail To The Thief, 2003)

O mundo é 2+ 2=5. a volta dos cabeças de radio ao planeta é também a volta a uma sonoridade próxima do rock (sob a batuta do Radiohead) e nesse sentido, no plugar da Guitarra que transforma-se num redemoinho de dedilhados que devasta a melodia erguendo yorke até a estátua da liberdade e vomitando nela uma voraz poesia, clássico absoluto.

Bloom (The King Of limbs, 2011)

O free jazz transfigurado em krautrokces alienígenas com tons de paisagens verdejantes numa selva urbana (sim um delírio como no filme, 8 1/2 do Fellini) é a pele da soberba abertura do rei do membros. Yorke canta o florescer das folhas, da paisagens, ao mesmo tempo que canta de um sonho, enquanto Phil e Colin parecem possuídos por estranhas raízes entorpecentes, numa das canções mais poderosas da discografia.

2º – Airbag (Ok Computer, 1997)

Para salvar o universo basta sentir de novo. A monstruosa abertura de um dos maiores disco da criados, delimita o nível astronômico de delírio poético num estruturalismo que virou padrão das próximas gerações. Aqui o Radiohead executa uma das maiores viagens sonoras que o rock já foi testemunha, uma opera dentro do desencantando mundo que foi a década de 90.

1º – Packt Like Sardines In A Crushed Tin Box (Amnesiac, 2001)

A desconstrução iniciada em OKC torna-se visceral na irreconhecível abertura de Amnesiac. Um dos discos mais odiados por fãs, é uma afronta áspera, por vezes insuportável é o seu percurso, nos sentimos sufocados pela intensa base de efeitos, guitarras saídas de um colapso do inconsciente entrelaçando-se com a esquizofrênica voz de Thom, como um personagem saído do livro de Kafka, perdido, confuso, solitário em seu desespero, vendo a vida passar num piscar de olhos, o caleidoscópio sonoro dessa canção é uma das mais desestruturantes, desconcertantes e surpreendentes aberturas de uma banda de rock desde sempre.

 

Encerramentos.

8º – A Wolf the door ( Hail To The Thief, 2003)

Com uma verborrágica conclusão agonizantes, os Radiohead encerram lindamente o seu sexto disco. A sensação é de urgência, de clamor, desencanto frenta a realidade do planeta capitalizado e desespero contido. O lobo está à porta para levar nossas crianças, assim como fez com nós, espelho de uma sociedade em declínio, tudo na poética de Thom Yorke.

7º - Blow out (Pablo Honey, 1993)

A poesia final de Blow Out é enigmática, sensível mas também áspera com sutileza. As guitarras finais é um dos grandes momento de Jonny e Ed na discografia. Sua ambiência já apontava rumos que viriam a ser explorados ais a fundo depois. Uma canção à altura das belas canções da banda num disco sincero.

6º – Videotape (In Rainbows, 2007)

Memórias gravadas numa fita de vídeo e revistas tempos depois causam lágrimas sublimes e deixam oca quando a saudade arranha a alma. Essa poesia é cantada de forma vulnerável por Thom Yorke ao piano. Phil marca os compassos de um VHs mórbido, que aos poucos vai morrendo, enquanto adormecemos possuídos por formas diversas de nós mesmos.

Life glasshouse (Amnesiac, 2001)

Uma das canções mais intrigantes e herméticas da discografia encerra um disco soberbo e polemico. O piano tocado por Jonny Greenwood ressoa lentamente enquanto uma sinistra orquestra ensurdece um Thom raivoso, parecido saído de uma sessão de tortura psicológica e agora canta intensos devaneios anti capitalistas em forma de metáfora, vivemos numa casa de vidro, o mundo. Clássico.

The Tourist (Ok Computer, 1997)

Se a urgência de uma explosão cósmica revestida de uma renascimento existencial deu a torna na abertura do mitológico Ok Computer, The Tourist é o blues andrógino, cheio de sentimento e calmaria necessário para a reflexão sobre a nossa era. Yorke pede que vamos devagar, para podemos sentir as coisas em sua verdade, sem a efemeridade de um mundo banalizado de sensações sobrepostas. A canção, peça rara, vai se esculpindo, em êxtase, perfeita e intocável…atemporal.

3º – Street Spirit (The Bends, 1995)

A poesia ainda é capaz de nos consumir, nos levar até as extremidades. E essa poesia é uma das razões sonoras de turma de Thom Yorke & Cia. Essa canção é uma das mais belas já escritas, mergulhamos nossa alma nos instantes onde a razão de ser só é sentido com amor. Os dedilhados são pequenos afagos em nossos corações quebradiços, choramos o encontro com nós mesmo e com a vida. Clássico absoluto.

Separator (The King Of Limbs, 2011)

Viver um sonho bom é algo caro ao ser humano. A perda muitas das vezes é irreparável, sofuca e  machuca. O mundo há tempos deixou de ser um lugar de encanto que por ventura poderia se achar. A realidade é que estamos nos tornando cada vez mais nocivos com o outro, com nós mesmo, com o planeta. A arte desbota e encontra sentido que perde-se e acha-se em meio a rotina do dia. Nesse sentido, erguer um sonho dentro de uma canção e vive-la ali, intensamente, como se um último suspiro fosse é a tônica de Separator. Canção filha das canções mais sensíveis da discografia. Yorke quase que solfeja em tons úmidos, neblinas de sonhos saem de sua voz comedida até implorar que o acorde. Acorde da nossa realidade. É nesse sentido que separator torna-se um clássico imediato. quanto atestamos ali, sua dimensão, cara, sofrida, onírica, profundamente humana,  de viver aquilo que se perdeu como se realidade fosse, passando a ser dentro de uma poesia.

1º – Motion Picture Sundtrack (Kid A, 2000)

O desalento é sentido em seu grau mais intrínseco nessa peça que decola rumo as imensidões, aos desertos a…outra vida. Thom em transe, num grave lagrimejante, sussurra poucas palavras, se machuca nas pequenos confissões, desiste do encanto de ser. ilusórias harpas e uma orquestração invisível são as asas, de uma banda que nunca mais foi a mesma que muitos esperavam depois desse disco, mas foi a a partir daí, mais do que nunca, si mesma e por isso, histórica.

 

Feliz 22 de Março 2009.

1.3.11

Radiohead – The King of Limbs

 

 

Radiohead

Disco: The King Of Limbs (2011)

Para muitos a arte nos dias de hoje não passa de um cadáver agonizando em meio ao caos da vida contemporânea. A banalização da vida, a violência, a degradação do meio ambiente, os jogos da propaganda consumista, a falta de uma certa espiritualidade, reúne elementos que tornam o ato de viver difícil, tenso, a não ser que você tenha em mente o desprezo pelo ser humano, pela natureza e abrace uma vida distante das questões que afligem nosso tempo.

Nesse sentido, poucos artistas, ainda comovem e causam algum tipo de estrondo e alvoroço nos tempos onde o consumo (de musica por exemplo) é imediato e descartável.

Quando surgiram em 1993 com seu debut (Pablo Honey) os Radiohead eram vistos como mais um grupo de grunge influenciados por nirvana, dois anos depois, fizeram um dos grande discos do rock inglês dos anos 90, o The Bends e se consagraria como o grupo a ser seguido no fundamental Ok Computer (1997).

Mas, a partir daí, O Radiohead reescreveu sua história e seguiu passos que dividiram muitos fãs, para não dizer que alguns se sentiram órfãos.

a verdade é que a banda dos amigos Thom Yorke, Ed, Phil e os irmãos Greenwood sempre foi inquieta e sempre dialogou com seu tempo.

Ok Computer captava um momento importante de avanço tecnológico, futurismo, o homem moderno de finais de século, sua condição como ser e em sociedade.

Kid A/Amnesiac (2000/2001) já captavam o inicio do novo milênio, as tensões da modernidade e o homem no centro desse fato.

Musicalmente os discos gêmeos estavam soterrados pela influência do free jazz de Alice Coltrane, pelo jazz cabeçudo de Charles Mingus e Miles Davis. Além da referencia ao krautrock de Can, faust e o os artistas da gravadora Warp, ainda que essa influência seja dita pelos quatro cantos como fundamental, os discos estão longe de serem discos eletrônicos, é um apanhado de influências que tornam discos herméticos e inclassificáveis.

Hail to the thief (2003) já ressoava com o abalo de um 11 de setembro que mudou a cara do mundo, rechaçou crises entre o oriente e o império americano, trouxe tensão e se tornou mais visível as máscaras do capitalismo. Tudo isso é captado de maneira metafórica no disco, considerado por muitos o mais "perdido" musicalmente, tese que os próprios membros da banda realçam por ele ter sido gravado muito apressadamente.

Mas musicalmente Hail to the thief reúne canções e coesa de difícil acesso, peças que foram retrabalhadas no extenso arsenal de sons da turma, um disco influenciado pela leitura de "Capitalismo e esquizofrenia" e "1984". Yorke nesse disco é como nós, mais um número no processo e aceita isso numa passividade agonizante.

Depois a banda encerra seu contrato com a EMI e lança-se independente. Captando as tensões num ciberespaço entre downloads e gravadoras, Thom & Cia são so primeiros da turma dos “grandes” a tratar o tema e não só isso, capta o momento delicado que a arte se encontra. In Rainbows (2007) poderia ser comprado com o preço que o comprador quisesse pagar ou até de graça, no geral, você refletiva o “valor” que a arte do grupo tinha pra você., forçando a pensar: Qual a o valor da arte nos tempos atuais?.

O estrondo foi grande numa mídia sempre sedenta por polêmicas e discussões. Musicalmente, o disco é nos ouvidos mais desavisados o mais acessível em tempos, suas canções parece ter sido esculpidas de tal maneira que não soam com nada parecido nos dias de hoje. Para chegar nesse fato a banda se atormentou e quase desiste e encerra suas atividades.
in Rainbows foi um marco estético, comercial, crítica e público, se renderam.

Pra onde ir?

Nos tempos de downloads intensos, motins virtuais, wikiliers,  gravadoras afundando, músicas e bandas de plástico, um mundo desencantado bate a nossa porta como um vento e bagunça nossa alma.

Qual o papel da arte nisso tudo?.

Qual o sentido de fazer música?

É nesse sentido que a banda nos apresenta seu oitavo filho.

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The King Of Limbs.

A criação de um sonho cantado como se real fosse e vivido em pouco mais de 37 minutos de um passeio por um lugar que nem lembramos mais. Nós mesmos.

A experiência de ouvir um Radiohead requer paciência, estar aberto a outras soluções para uma canção, outros andamentos, por vezes canções sem refrão, dissonância e quebras rítmicas pontuam uma turma inquieta e que mesmo com mais de 20 anos na estrada não se rende.

E sim, The King of limbs reúne uma banda disposta ao desequilíbrio.

Não, não é uma volta ao universo de Kid A/Amnesiac.
Nem ao estruturalismo que agrada os fãs de um rock mais escultural como o de Ok Computer. Também não é um novo In Rainbows é simplesmente uma obra única, fechada em si, de uma banda que inventou seu universo e gira sobre ele.

"Bloom" abre krautrokanamente. O piano elétrico (que ressoa a canção inteira) flutua (lembrando os primeiros discos dos alemães do Popol Vuh) e envolve os ouvidos, alguns segundos de loops de batidas até surgir um Phil selway alucinado (assim como em Morning Bell/Dollars and cents/Mixomatosis/15 step) num outro andamento, ainda por cima, o baixo do Colin em poucas notas pontua a entrada de thom (colin parece que gravou o baixo de um outro canal em marte) e permeia um thom em vocal chapante. Uma orquestração à la Alice coltrane ergue o clima,  a atmosfera de um florescimento lento.  "Abra sua boca" canta yorke, parecendo sobrevoar um descampado, possuído pelos mais intensos sonhos.

O free jazz continua em MorningMrMagpie. The king of limbs nos apresenta uma banda sinistra, A guitarra de jonny greenwood nunca antes tocada assim e de forma abafada entrecorta a tensão de uma bateria num compasso impenetrável, Phil realmente está na sua melhor forma. "Você tem muita coragem pra vir até aqui Você tem muita coragem pra vir até aqui" dispara Yorke entre setas, descompassos, tensão raivosa e lisérgica, a canção corre, free jazz /krautrock, tudo guiado pelo intenso frotman que não descansa. Pelo meio um violão bêbado dialoga num esquina solitária da canção. Tudo parece que vai se desprender do chão e colidir com alguma parede invisível mas estranhamente a canção se mantem, algo a faz se unir, um milagre jazz...

"Você roubou toda a minha magia E levou minha melodia".

Violão, baixo, bateria marciana e um lindo vocal permeia a bela  LittleByLittle. Canção que Jonny quase que solfeja as notas, enquanto Colin destila sua linha passeando por dentro da melodia ondulante e cheia de variantes com um Phil linear como se estivesse em outra freqüência.

"Obrigação, Complicação, Rotinas e horários, Droga e te mata Te mata"

Dispara um yorke confessional, que como num sonho, não quer acordar agora, o mundo de hoje exige mais do que viver, exige e te suga a alma.

A instrumental Feral (selvagem) parece um banda que não consegue encontrar sua razão. A melodia parece presa, Yorke tenta cantar algo mais tudo é abafado, incompleto, não há sentimento, a selvageria dos loops, o baixo do Colin que impregna, causa incomodação, aflição, thom parece um Cyborg se debatendo no meio de uma floresta.

LotusFlower nos apresenta para a segunda parte do disco. Seqüenciadores comandados por Jonny Greenwood, teclados gelados e um baixo sedutor (assim como em Nude e All i Need) realçam a cristalização de um vocal que parece que engoliu uma um luz desconhecida que da vida num falsete épico.

"Há um espaço vazio no meu coração onde cresce o mato
E agora eu vou te libertar, te libertar"

A bateria sempre incomum de Phil e os loops no vocal de Thomas evidencia uma das canções onde os Radiohead mais estão a vontade nesse disco. Recriando dentro da própria sonoridade que eles inventaram pra si, o cunho de originalidade que lhes é caro.

Desde de Amnesiac o Radiohead vem trabalhando peças minimalistas ao piano. Canções como pirâmide Song, sail to the Moon, Videotape, mostram um Yorke dissonante ao piano, sempre buscando fugir dos velhos clichês de canções assim, sempre com compassos improváveis e pouco refrão, a influência do jazz é visível mas toda as belezas anteriores , as tensões, os medos, a angustia de não-ser ,deságuam na peça de rara poética  de "Codex".

No ambiente frio de Lotus,  Yorke é transportado (assim assim como Pull/revolving door e You and army) para uma contemplação imensurável. Ele mergulha numa nuvem, descansa, deita sobre as folhas sem machuca-las e ouve os compassos mais íntimos da natureza.

"Deslize suas mãos
Salte no final
As águas são límpidas
E inocentes
As águas são límpidas
E inocentes"

Canta thom querendo que nós façamos parte da experiência. Quase como de onde o ponto que paramos em Pirâmide Song (onde não havia mais nada a temer nem a duvidar) somos tocados por uma canção irretocável, uma orquestra comandada por Jonny Greenwood, pontua a beleza e a sensibilidade em forma de canção. Os rapazes de Oxford, donos de canções como Boolet Prof. I Was, Street espirit., No surprises, Desappear Completely, Scatterbrain, assinam mais um ato sublime no imaginário da poesia moderna. E tudo encerra-se entre pássaros, caindo a tarde ou chegando o outono em "GiveUpTheGhost"

O verso:
"Não me assombre, não me machuque
Não me assombre, não me machuque"

Repete-se pela canção inteira, cantando um yorke sabendo que logo acordará, logo terá que lidar com as razões que ditam as regras desse mundo,
logo seu sonho terá que da lugar ao que chamam de "realidade". O sentimento de não fazer parte de um todo mais uma vez eclipsia um artista inquieto, uma eterna busca quase espiritual por uma zona que não seja de conforto e sim de consolação, uma das bases e buscas de toda a poesia desse trovador solitário em todos os discos da banda. Yorke lagrima e nos prepara para a separação onírica em "Separator".

Encerrar bem seus discos sempre foi uma especialidade dos Radiohead.
Parece que a última canção sempre trouxe uma beleza a mais, um delírio e uma certeza que reafirma toda a obra.

E não foi diferente com Separator.

A banda toda retorna, Jonny Greewood experimenta tensões na guitarra, Enquanto Phil passeia numa andamentos só seu, seqüenciadores distorcem a voz de Yorke que parece estar em outra freqüência, distante, num conforto de alguém que viveu um sonho bom e vive a memória cheia de saudades sublimes que o fazem voltar sempre que quiser. Pelo caminho um solinho na guitarra do Jonny que depois cresce, tornando-se as asas invisível de Thomas, um Thomas de rosto afagado pelos ventos, que acordou de um universo só seus mas o que antes era um sentimento de desconsolo crônico agora pousa na sua retina a máxima que o sentir é eterno.

A arte está aí para isso, te fazer sentir de novo, te fazer acreditar que um sonho é possível num mundo onde o desalento recria a certeza da falta de encanto nas coisas vividas. O arranjo de guitarra no final é uma dos mais belos da discografia da banda e encerra em meio ao apelo do Thomas-poeta para acorda-ló da nossa própria realidade. Uma das grandes obras de artes da obra do grupo desde sempre.

"É como se eu estivesse caindo da cama
Depois de um sonho longo e fatigante
Finalmente me livrei do peso que carregava

Quando eu pedir de novo
Quando eu pedir de novo
Me acorde
Me acorde"

The king Of limbs é um passeio solitário pelo sonho de um poeta.
O sonho de um mundo como ele queria que fosse,  um sonho de alguém  que acredita nas relações entre homem e natureza, alguém que ainda sente o prazer irreparável de observar um flor, apreciar a beleza de um pássaro ou o correr de um rio, algo que perdemos em tempos de internet, relações banalizadas, amores descartáveis, arte que não comove apenas preenche o intervalo do almoço ou serve para nao causar tédio.

Um mundo que desbota aos poucos e onde fazer arte que não seja apenas por mera arte, requer paciência, trabalho, requer  certeza dentro de si que de alguma forma, uma obra terá alguma razão na vida de alguém.

Musicalmente o oitavo disco dos Radiohead abraça numa parte o Free Jazz de Alice Coltrane e o Krautrock do Faust, um passo a frente nos experiências anteriores, numa banda segura para não seguir fórmulas. Na segunda parte, o velho e inominável Radiohead, com sua dissonância, orquestrações e beleza, alguns loops e samples apenas como complemente, ao contrário do que andam afirmando, o disco tem pouca coisa de eletrônica, além de um fluidez e fragmentação orgânica que pode soar eletrônica em alguns ouvidos.

O Radiohead segue compondo obras primas e nos comove com sua sublimação absoluta.

O poder da sutileza em estado de graça dialogando com a natureza mais elementar.

Parabéns a banda por captar nosso tempo assim e nos entregar mais um documento.

Canções que serão milenares tanto quanto o carvalho que inspirou o título do disco.

O VERDADEIRO REINADO DA ARTE EM ESTADO BRUTO.

 

Para ouvidos entorpecidos por: Faust, Alice Coltrane, Neil Young, flores e pássaros.

23.2.11

14.2.11

The King Of Limbs

ELES ESTÃO DE VOLTA.

A maior banda do planeta anunciou nesse segunda feira o lançamento do seu aguardadissimo oitavo trabalho. O que esperar dos gênios de Orxford?.

????????????

O mistério permeia a banda desdo lançamento de In Rainbows, até então, fãs estavam acostumados com turnê para testar as canções e muitas “versões” ao vivo até encontrar o meio termo para o alinhamento, mas e agora?

O título é uma referência a um árvore de cerca de mil ano, que fica no condado de Wiltshire (inglaterra) nos arredores onde a banda gravou o disco anterior.

A julgar pelos artistas que o Thom anda ouvindo (muita eletrônica, hip hop, experimentalismos) a julgar por sua decepção com a política climatica no mundo e por alguns canções apresentadas a solo. e por uma capa à lá Flaming Lips, cheia de simbolismo, sombria com cores envelhecidas, numa espécie de “pós-In rainbows”. O disco pode ser um petardo conceitual, “vítima” dos tempos modernos, pessimista, desolador, calmo e urgente.

Que venha mais um disco pra coleção dos discos fundamentais da banda e consequentemente de toda a sua geração.

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31.12.10

Radiohead – Show completo para o Haiti

Para o último post de 2011 o velho conhecido da casa, Radiohead.

A banda foi um dos grupos que agendaram show beneficiente para arrecadar dinheiro para ajudar as vítimas do devastado Haiti.

Agora, final do ano, a banda autoriza a liberação do video completo (montado por fãs uma prática que parece ficar cada vez mais constante dentro dos fãs da banda) e ainda pede para aquelas pessoas que puderem ajudar, link embaixo:

Link para ajudar

O show em si é genial como sempre e único como sempre. Quem acompanha apresentações da turma de Thom Yorke sabe que nenhum show é igual o outro, a banda sempre tem ao seu lado celebres releituras e arranjos que fogem das meras apresentações cheias de hits. Com um set list raro e um público caloroso, o Radiohead segue sendo a banda da nossa geração.

 

FELIZ 2011 A TODOS.

22.12.10

Matéria/The most gigantic lying mouth of all time

Radiohead Tv


Chris Bran, 2004
IndieLisboa, 2006


Bizarro. Cápsula anti-tv. Absurdo, quase. E por isso delicioso. The most gigantic lying mouth of all time é uma quase-mentira. Uma pacote de experiências de levitação. É o produto final de um projecto abortado: na altura de lançamento do álbum Hail to the thief os Radiohead anunciaram a abertura do seu canal próprio, o radiohead-tv. Este filme (?), documentário (?) é o fruto inacabado e vai ficar assim, como objecto final. Um conjunto dos primeiros quatro episódios, que compila material enviado por admiradores e outro produzido pelos próprios Radiohead e apresenta ainda um conjunto de temas inéditos dos magos britânicos.


Momento épico, da máquina a amamentar o recém-nascido com óleo ou diesel ou petróleo ácido, progressiva programação de sentidos, a, b, h, delete, insert, e Spinning Plates (amnesiacquiano) a ganhar visual, inquietante.


Amargo na língua, de tão delicioso. Mas é preciso estar dentro, bater bem a porta para evitar correntes de ar, aborrecimentos por não se perceber o universo radiohead. Sobretudo, é preciso gostar dos génios de Oxford, ter lágrimas cravadas em Ok Computer, desenhos de minúsculos monstros rebeldes no caderno, «against demons», «i might be wrong», «Fitter, happier, more productive, comfortable, not drinking too much, regular exercise at the gym (3 days a week)...», letras de Kid A no impresso para entregar nas finanças, histeria quando se ouve Street Spirit (Fade out) perdida numa radiofonia qualquer. Reunidas estas pétalas de loucura, The most gigantic lying mouth of all time torna-se ultradigerível, entranha as imagens mais absurdas (que as há, que são fatia grande de cada episódio) no mais orgulhoso absurdo do ser. É pura masturbação.


Entrevistas sem sentido com Thom Yorke, viagens sem dentes de ouro pelo experimentalismo da animação, Yorke a solo no piano, Hail to the thief por todos os poros, magnitude de imagem conjugada com uma ou outra, ou mais, absolutamente incompreensível, lição de política internacional declarada (das animações com melhor realização) a Bush e Blair, primeiras-damas do mundo, nódoa de sangue e de luz a pintar o escuro, distorções de imagens, de voz, de faces, de ideias – os Radiohead e a comunidade que os abraça, sem espinhas. Hino à libertação, desaconselhado aos que não resistem a paisagens cinzentas

 

Matéria em:   rascunho

10.12.10

Radiohead Paris 2001

Por: João Leno Lima

 

 ARTE BRUTAL COMO MANIFESTO ÚNICO

 

Uma das grandes provas viscerais da genialidade de uma banda é quando ela consegue transportar, digo, ser tão fundamental no palco como é em estúdio. Recriar um disco ao vivo não é tarefa fácil e o facilitismo entre apenas se “auto” coverizar é muito atraente quando o conservadorismo (show para fãs) assume o posto da ousadia.

 

Outro Ponto. Quantas bandas conseguem cravar dois grandes discos numa década, sendo um deles considerado quase por unanimidade como um dos melhores disco de todos os tempos e ainda provoca alvoroço dois discos depois e iniciar o século com uma das obras mais discutidas da música contemporânea e apesar de tudo isso é capaz de ter apenas um DVD oficial, um documentário cabeçudo  e uma pequena (7 músicas) compilação de canções ao vivo?. Muitas Bandas tem a tão pouca batuta e mesmo assim enchem fãs de DVDs, Best ofs diversos que afastam seu público da gama, da matéria prima de seus discos.

 

Em 2001 os Radiohead levam a Paris um espetáculo único. Único onde o que interesse nã0 são os telões megalomaníacos, não é a camisa do Zidane ou os closes-ups profissionais o que  interessa é a música. Sim, esse artefato entorpecente inigualável e em se tratando dos rapazes de Oxford, isso pode ser inesquecível.

 

A banda aterrissa em Paris com dois discos conceituais que deram nós em muitos fãs. Kid A (2000) e amnesiac (2001) são peças de genialidade que se não agrada quem prefere guitarras, provoca apaixonadas discussões sobre conceitos musicais e posturas. E foi nesse sentido que eles recriaram no palco duas de suas mais notáveis criações.

Para quem acompanha a banda de fake Plastic (em the bends) Karma Police (de Ok Computer), além é claro de Creep (do debut Pablo Honey) e levou um susto com os discos gêmeos, pode perceber mais que do que nunca que se tratam de discos orgânicos executados com precisão e detalhes típicos da inorganicidade de discos sintético (ou como muitos ainda insistem a atestar discos eletrônicos).

 

Mas a referencia jazz mistura-se a parafernália (como espaçonaves sobre o palco) montados por Jonny e Ed e canções que pareciam impossíveis ou inviáveis ao vivo se transformarem em manifestos irretocáveis como a monstruosa Packt Like Sardines In A Crushed Tin Box onde a guitarra de Jonny parece possuída por sintéticas formas de linguagens vindas de outros planetas.   Momento raro também pontua o petardo The National Anthen onde o baixo do Colin parece pesar uma tonelada. A dobradinha I Might Be Wrong e Knives Out entorpece os vasos sanguíneos da alma, na primeira, Yorke parece possuído por alguma força extra terrestre e debate-se num pandeiro mágico dilacerado pelos Riffs Cyborgs de Jonny. Na segunda, o violão de Thom cria base para Jonny desenhar longos tratados poéticos em forma de dedilhados.  Ed destroe o ambiente com um riff desmoronante em Dollars And. cents. O clássico jazz embriagado do Amnesiac ganha teores dramáticos, onde a banda aparece estar fora da via láctea e mostra que o poder orgânico do Amnesiac.

 

já em How To Desappear completely (disparada com uma das canções mais arrebatadoras da nossa geração) é apresentada de forma singular com uma orquestra de Ondas Martenot ensurdecendo um Yorke perdido no litoral de si mesmo com seu violão solitário. Pyramid Song não fica atrás e mergulhamos nos oceanos criados para nos ensopar com os Ondas Martenot onírico. You And. army? mostra a genialidade de síntese da banda. Colin gira em acordes circulares enquanto Jonny frasea a canção com notas-gotas que choca-se no rosto de um Yorke vertiginoso e tudo deságua em múltiplas camadas pelas oito circuitos da nossa mente.

 

Idioteque restaura a lisergia nervosa e da movimento acelerado ao ciberespaço onde Thom sobe pelas paredes da melodia entrecortada pela bateria marciana de Phil Selway. In Limbo mostra porque é uma das canções mais alien de Kid A, seu jazz enrosca-se com as teclas minimais de Ed enquanto Jonny mina o espaço com antídotos de devaneios psicodélicos em compassos futurísticos. Everything Right Place aterrissa com seus desdobramentos onde Jonny captura a distorce a voz do Yorke e como um exorcista robóticos extrai os mais alucinantes fantasmas da voz enquanto Ed (sentado do outro lado do palco) vai desmontando os acordes e criando pequenos monólitos minimalistas, uma verdadeira performance ao vivo de arte bruta e  genialidade.

 

Tudo encerra-se com a melancolia transcendental de Motion Picture Soundtrack, uma das mais emblemáticas canções de Kid A, suas harpas ilusórias, reflexão da própria desilusão desencantada do mundo atual, permeia um Yorke solitário, em tom grave, uma melodia carregada de significância extrema, visceralmente cortante em nossos sentidos entre pequenas imagens daquilo que nos tornamos, pós -sonhadores de um mundo que não encanta mais e pior que isso que agride e distorce o lado mais fundamental na existência humana, sua plenitude.

 

Kid A/Amnesiac em Paris 2001 poderia ser um super. DVD ao vivo mas é um momento raro, documento de que em nosso tempo cinco amigos mostraram ao mundo que fazer música é mais que um negocio ou deslocamento de egos, que ao vivo uma banda consegue ser urgente e mais rica ainda que seus aparatos de estúdio, não apenas pela energia contagiante mas pela arte ali, sendo trabalhada na hora, como artesões melódicos tomados até a borda do desejo de viajar até a mais profunda sensação de sonho humano.

Mas uma mostra incontestável do poder da música em todas as suas esferas.

4.8.10

Radiohead – The Bends

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Radiohead

Disco: The Bends (1995)

Amigos imaginários povoam nossas vidas desdos tempos de infância e preenche nosso mundo com o universo único do sonho. Depois crescemos, adquirimos a responsabilidade e os pesos do mundo e algumas coisas se perdem, mas outras permanecem intactas sobre outras formas. Papel fundamental da arte e uma das suas vocações. Espreguiça-se dentro de nós, empurrando a inércia para o lado de fora, trazendo luz aos sentimentos e desatrelando nós de qualquer vazio. Mesmo que essa seja espelho do próprio artista e de sua obra mesmo que essa seja vasta e infinita. E esse papel de "amigo imaginário" é o papel que The Bends tem pra mim. Do primeiro e crucial mergulho até o âmago do que somos e ao avançar da profundidade a certeza...

Quem somos?

Um vento surge dos meandros do silêncio e se fragmenta em pequenos organismos que aos poucos vão reconhecendo um o outro e formando a textura de "Planet Telex". As distorções da guitarra misturam-se ao sublime canto desolador de Thom. Ele dobra-se, espreme-se pelos compartimentos de uma canção urgente e sublime não menos de alma quebrada. Se o mergulho está cada vez mais fundo, a faixa-título "The Bends" é o atestado de alguém perdido nas próprias poças imensas da profundidade. Para onde iremos? Canção irretocável. Texturas de guitarras estremecem vocais trovadores e tudo se acalma num violão desencarnado. O pessimismo toma conta até das mais sensíveis das verdades e a canção se eterniza erguendo a constatação de um abismo.

Se a urgência de uma alma febril pontua a textura das duas primeiras canções, Phil Selway pede calma e abre a sublime "High and Dry". O violão “Automatic for peopleano” pontua uma das mais belas canções da nossa geração. A certeza que estamos indo cada vez mais fundo e pior do que nunca e que isso parece sem volta. Não só não conseguimos mais controlar as coisas como elas controlaram e moldam o que almejávamos ser. O que almejávamos? ao olhar para trás o silêncio seria a melhor das respostas.

E depois de sentarmos num canto contemplamos a efemidade e a passagem das horas sob a dilacedora melodia pontiaguda de "fake Plastic Treens". Se as cores começam a desbotar e já não temos mais certeza do caminho, tudo começa a ruir e o sentido é deixado em alguma esquina. O violão rasga a pele da canção, Sem dúvida uma das mais belas de todos os tempos.

Sentimos isso nos ossos e até quando disfarçaremos? "Bones" é áspera e aponta em nossa cara. Escancara no meio da multidão dos nossos sentidos o desconhecido que nos tornamos e agride a ferida num ato desesperador de mescla de medo e otimismo encarnado. Quando vamos voltar a sentir? As guitarras erguem as paredes para depois desabá-las. E nós, Peter pans envelhecidos despencamos na cama em lágrimas e soluços.

Ainda temos força para um sonho bom? "Nice Dream" é a própria beleza radiohediana em forma de esperança desolada em algum horizonte sem horizonte. O violão choca-se com pequenas construções de piano e solo erguendo uma nuvem acima das nossas cabeças. Se olharmos bem, são os sonhos bons que nos movem além de nós mesmo.

A queda contínua, apos um momentâneo esquecimento é retomada na dissonantemente instigante "Just". O violão é soterrado pelos braços de guitarras que transbordam por todos os poros. Canção amarga que te joga pelas goelas e vamos capotando em solo desconcertante e vocal que te olha nos olhos, antes de te vomitar.

O mergulho parece deixar dormente até a alma mais perturbada e isso é descrito no hino "My Iron Lung". O diálogo entre as guitarras parece verdadeiras óperas ouvidas no fundo do oceano. A fé que abandona a falta até da própria dor, a ânsia para não cair nos sonos das meras lamentações juvenis e ali ficar, como alguém que sucumbe na própria poça de sangue permeia o pulmão de ferro da melodia.

Mistura de aspereza e sublimidade que deságua nos recifes e plana ao lado das algas de "Bullet Proof..I Wish I Was".

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O violão de volta a ordem vaga pelas embarcações das nossas memórias e olhamos apenas o movimento das coisas que vão e vem... Disposto a sentir até as útimas conseqüências, até o último suspiro, disposto a voltar, mesmo que para isso haja dor, voltar, voltar a sentir a si mesmo. E isso se entrelaça numa canção rara.

Se nosso mergulho íntimo é invisível aos olhos do mundo "Black star" surge de um crescente silêncio e como alguém devorado por mil ratos por dentro e todo colado por fora se perde em contemplações e sem poder explicar realmente os acontecimentos exaspera-se em desculpas que lembram os grandes poetas malditos e suas incompreensíveis e líricas verdades atemporais e dramaticas. E essas verdades formam e moldam aquilo que somos mesmo sendo apenas e, sobretudo para nós mesmos.

E essa espécie de constatação daquilo que não volta mais, se forma na beleza dramática de "Sulk" e se dilata como uma ferida exposta na última obra prima da obra. "street spirit". A dedilhação toca as mãos dos anjos da melodia e o vocal se encarrega de nos fazer voar nas imensidões de volta do mar, intenso e imenso mar do que acreditamos que somos. Para Yorke uma canção que o atinge e o consome e se formos pensar bem... Como ela nos atinge! A volta das profundidades mais inconfessáveis revela confissões silenciosas. O mundo. Como traduzir o mundo? Nós? Sonhadores? Toda a dor vem do desejo de não sentirmos dor realmente? Todas as coisas que nos fazem desaparecer, todas as coisas posicionadas, tudo no seu devido lugar? Como desaparecer completamente? Arvores de plásticos? Num limbo? Flutuando para a Lua? Num rio de olhos negros?...Somos os espíritos das ruas. Das ruas de nós mesmo e do mundo. E para onde correr? A última mensagem dessa obra de arte chamada de The Bends - segunda obra desses meninos e sua primeira obra inesquecível é -

…Afunde sua alma em amor...

E nós, silenciamos com as lágrimas do sentir. A verdadeira razão desse disco, sentir!

Até a última gota de cada segundo... Sentir!

Como diz o poeta Fernando Pessoa:

“Sentir tudo Interminavelmente”.

Então voltemos e mergulhamos de novo e sempre à esse amigo imaginário – aquele que te ouve e te entende em forma disco.

Doze manisfestos que permanecem intocáveis em nossos corações.

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Para ouvidos entorpecidos por: R.e.m, Joy Division, Jeff Buckley

15.7.10

Radiohead - Hail To The Thief

A constatação desconsoladora de um mundo de cores cada vez mais sombrias e transbordando referências por todos os poros - como uma engrenagem psicodélica , indomável e onisciente - marca o regresso dos cabeças de rádio aos seios de um mundo doente.

Radiohead

Disco: Hail to the thief (2003)

O espaço onde – depois de passarmos pela porta da melodia – e entrarmos num universo de sensações moleculares pode ser vislumbrante e pertubador. Temos essa certeza já nos primeiros segundos de Hail To the Thief. Ao plugar da guitarra somos arremessados numa bolha indivizível  que vai crescendo aos poucos, nervosa - como o mundo em quem vivemos pós-11 de setembro - como o cotidiano e uma manhã qualquer. A matéria viva se dilata em dimensões inimagináveis, cada fragmento de esparros e soluços fogem do controle e da gravidade – essa há muito tempo subvertida pelo grupo de Thom Yorke e Jonny Greenwood – mentores de um som futurístico profundamente odisséico num lamaçal sintético visionarissimo e sobretudo urbano. Como aliens indefiníveis que passeiam pelas ruas com câmeras fotográficas - c0m olhos de crianças - para futuras análises não só do mundo mas de si mesmo. Cada metro quadrado do sexto rebento produzido pelos rapazes de Oxford respira a incerteza certeira que a máquina – O grande irmão de Orwel – como uma vírus – penetra nos poros dos nossos gestos quase involuntários e vai criando - como um embrião mutante - a esquizofrenia materialista  e ditando a  ordem dos passos dos pensamentos e fundido-se em nossas artérias engessando e domando a natureza instintiva e porque não imaterial e vívida de cada um em meio a estrutura erguida em suas 14 faixas definitivamente acima do padrão de Nigel Grodich - o mítico sexto membro do grupo.

Como disco Hail to the thief foi arremessado na categoria de álbum que reúne um pouco de cada uma das obras do grupo mas como disco, Hail to the thief concentra muito mais que um apanhado de referências próprias. Embarcações flutuantes para a lua e delírios de anjos desabando, tesouros inconfessáveis de raras melodias e fusões impensadas de jazz eletrônica e experimentalismos com assinatura própria, transforma o petardo num disco chave. Não só isso. As canções foram submetidas a intensas experiências sensoriais e ao calor e afago de um público sedento. Um disco de uma banda que arrisca rupturas rítmicas e calendoscópios espaciais, num verdadeiro artefato de percepções. A tarefa árdua é traduzir cada centímetro quadrado. E esse compartilhamento de informações entre artista e ouvinte deve ser paciente e juntar cada pedaço e montar o mapa dos sentidos requer aos desavisado e para fãs antigos que esperavam vida fácil (após os quebra cabeças Kid A e Amnesiac) um tempo de diluição mais paciente nas veias da sensibilidade. As referências passam pela literatura política de Orwel, Deleuze, Guy Debord à "krautrokces" nervosas de Neu e Kraft e pelos universo concretamente virtual de Four tet e o jazz alien de Alice Coltrane. Ouvimos mais uma vez  o tenebrosono instrumento eletrônico da década de 20 ( Ondes Martenot) despejando nevoeiros sobre a tela, os clássicos xilofones transformados em rádios transmissores emitindo mensagens secretas à outras galáxias, palmas ouvidas em outras dimensões, tambores ancetrais do futuro e linhas de baixos indecrifráveis montam e remontam uma obra inenarrável que agride com a passividade poeticamente inerte de Thom Yorke e  acalma como uma demente chapação subversiva entre arte e o cotidiano surreal não menos real e  nos perdemos em meio a indefinições auditivas atemporais.

 

Mesmo que não tenha agradado à banda – muito pela correria da gravaçao inconfessada em poucas semanas  e pelo número “exagerado” de faixas – um abuso de artistas exigentes e sempre insatisfeitos - o mundo pessimista e intimista se espalha em verdadeiros submundos erguidos nos becos e esquinas do tempo. (Thom Yorke) O ser atormantado é apenas o fio condutor que não conduz e sim é conduzido para as crateras do que poderia ter sido e jamais aconteceu -  Um mundo de cores mais consoladoras e um início de século esparançoso e linear? mas não. Respiramos o cansaço juvenil e o medo onírico do presente, como lobos devorando nossa própria infância nos sentimos constrangidos e renegados por nós mesmos e acreditamos que tudo continuará do mesmo jeito ou pior. Não, Hail to the thief não é um disco pessimista.  O mundo é a matéria prima – e mesmo que isso não seja feito para deixa-los felizes – pelo contrário certamente – a obra nasce dessa carcaça de sonho – desse bálsamo ácido - desse quadro tão íntimo e confuso que ao mesmo tempo riscamos - fazendo arte (?) e produzindo vida e que as cores já não fazem muito sentido e  haveria de ter?. Hail to the thief é o parto – expelido pela alma – do próprio mundo – cada elemento dele – célula sonora que divide-se em dimensões sensoriais se adaptando ao tempo e nós a ele – é a materialização hologrâmica – como um espelho turvo – de nós mesmos. Um obra que servirá como documento histórico do papel que a visão de um artista, sobre o  tempo em que viveu e como isso o atinge irreverssívelmente, pode definiar sua arte  e sua atemporalidade. Hail To the Thief é a prova - Definitiva - que estamos no tempo onde 2+2 é 5...

Mais um trabalho  do  quinteto para ser discutido interminavelmente pelas próximas gerações.

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Capa

Para ouvidos entorpecidos por: Radiohead, Faust, Four Tet

 

Link> Download

20.6.10

Radiohead - Amnesiac

 

Radiohead

Disco: Amnesiac (2001)

Na década de 90 o rock perdeu força e dividiu atenção com outros estilos para a grande mídia e o efêmero se estabeleceu como parte importante da engrenagem pop.


Quantas Bandas no atual estado de efemeridade do rock conseguem compor discos atemporais e estandartes do seu tempo?


Thom & cia chegaram para esse disco rodeado pela aura mística da genialidade atemporal de Ok Computer (1997) e por ter chocado o mundo da música com o sufocante Kid A (2000).

Amnesiac é um caso clássico de disco que você ama ou
odeia profundamente, ou você se vicia e não larga mais ou raramente você volta a querer passar por essa experiência, um disco no sentido mais puro do termo. Instigante.


Sob a batuta do engenheiro de som Nigel Goldrich, uma pequena orquestra comandada pelo multi-instrumentista Jonny Greenwood e o lendário trompetista jazzy Humphrey Lyttelton, com a influência da música eletrônica experimental de
vanguarda, do jazz clássico de Charles Mingus, Miles Davis e Alice Coltrane evocando os ecos da arte conceitual contemporânea, releituras do Krautrock de bandas lendárias como Can e Faust e inspirações nos artistas da Warp (selo independente de música eletrônica), Amnesiac nos entorpece com nossos próprios sentidos ultras sonoros.
A banda assina um dos mais melancólicos e sombrios discos da sua geração e ao mesmo tempo assim como Kid A (2000) uma das mais discutidas obras que a vanguarda da música produziu nesse inicio de século XXI.

 
Não é um disco fácil. Amnesiac abre em estado de alerta. Baterias eletronicamente enlatada que aos poucos vão se esculpindo entre o baixo e os pequenos sussurros de guitarra e vozes indecifráveis se chocam na eletrônica em espiral de Packt Like Sardines In A Crushed Box. Yorke acusa que nossas vidas estão passando num piscar de olhos e não estamos percebendo. Como barcos navegando para os sonhos mais distantes além da vida, Yorke nos entrega um oceano surrealista em Pyramid Song. Uma balada jazz num piano descompassado onde o soluço oceânico de Yorke joga-se num “rio de olhos negros”. O arrebatador arranjo de cordas entrelaça-se com as vozes sussurrantes e trêmulas de delírios onde massas cinzentas de longínquas camadas de uivos oceânicos nos arremessam na asfixia cyborg de Pulk/Pull Revolving Doors. Portas desafiadoras pelo qual só conhecemos no mais profundo âmago da nossa consciência são adentradas por um Yorke entubado por uma voz mecânica, arte conceitual ou performance conceitual? Aqui a banda vai o mais longe até então na esquizofrenia eletrônica de vanguarda, se espatifa em camadas e camadas numa perturbadora sufocação sintética, ácida não-humana... Então nossa alma é transportada para o deserto íntimo de You And Whose Army? Um Yorke distante canta entorpecido por pesadelos futuristas. A guitarra dispersa de Jonny Greenwood logo é soterrada pelas camadas de ecos Krautrockanos, pianos, baixo e baterias ensurdecem um Yorke arrebatado e ciente de onde quer ir e numa noite gloriosa ele almeja fugir em um cavalo fantasma para dentro si mesmo.
Em I Might Be Wrong. Um timbre nervoso da guitarra de Ed’O Brien rasga o silêncio surgindo um Yorke alucinado percorrendo os túneis criados por Jonny. A guitarra repetida com simetria espacial entrecorta o ambiente urbano e perturbador, enquanto ecos fantasmagóricos o perseguem pelos corredores do seu próprio medo de fracassar em si mesmo. Ja em Knives Out uma sinfonia de guitarras e vilões dialoga dentro dos nossos cinco sentidos. A constante bateria jazz misturam nossas percepções sensoriais enquanto Yorke áspero metaforiza sobre ratos e seres humanos se confundindo no soturno alvorecer dos tempos atuais. Os labirintos dedilhados por Jonny Greenwood são destilados com uma genialidade melódica indivisível.
Chegando na metade do disco, a banda nos apresenta um nova leitura de Morning Bell. A genial bateria metronômica de Phil Selway da versão do disco anterior dá lugar a cordas e violinos e fica uma tarefa árdua saber qual a mais emblemática. Aqui Yorke
está lagrimejante e inconsolável e nessa fragilidade cotidiana de alguma manhã qualquer ele ouve o Dollars And Cents. Explorando densas camadas de jazz com complexas doses de sintéticas vertigens eletrônicas, a banda toda entra cobrindo os espaços. O contrabaixo circular de Colin Greenwood e os pratos constantes da bateria de Phil metaforizam a monotonia cotidiana, enquanto teias de fanstasmagoria eletrônica vão se esculpindo se fundindo com a guitarra de Ed que vem como um trem descarrilando lentamente, enquanto Jonny cobre como um manto congelando os arredores com teclados cheio de nevoeiros.  O ambiente é esquizofrênico e alucinado e Yorke é conduzido a vertiginosa confusão de pensamentos e angustias. A guitarra se espreme pelas bordas da melodia deixando desolado o cenário cheio de rachaduras e vidraçadas. E nisso surge uma guitarra gélida explorando um canto desolador na instrumental Hunting Bers. Alguns timbres graves e um ar de devastação interior no meio de um deserto transcendente permeia para nos arremessar em Like Spinning Plates. Aranhões de vinis giram ao contrário a melodia improvável que vai conduzindo um Yorke impessoal, áspero, escalando sua própria mente como se tivesse explorando o mundo submerso dos sentidos. Ondas vagam por freqüências quase imperceptíveis, Yorke é levado pelas correntezas indomáveis do seu eu e deságua entorpecido para um último suspiro... Baseado num complexo jazz espacial de Life In a Glass House. Com letra de Jonny Greenwood e soterrado pelos trompetes de Humphrey Lyttelton um Yorke melancólico canta pelos arredores de si mesmo. Clarinetes arrastam-se pelo interior do desejo de alcançar-se, o desejo de ir até o fundo num mergulho nas próprias respostas que encontrou pelo caminho, pelo próprio infinito da sua própria infinitude. O piano alienígena de Jonny Greenwood em compassos nebulosos cria o chão para a orquestração penetrar pelos poros da melodia e fundi-la encerrando de forma improvável o disco com camadas de pequenas peças com galáxia sonoras dentro.


No disco mais esquizofrenicamente viciante do Radiohead, temos um sopro curto que às vezes parece insuportável para ouvidos não acostumados a visitar extremidades sonoras profundas. Aqui a banda se desconstrói arremessando-nos em ambientes asfixiantes de nós mesmo, onde a melodia enrosca-se pelos tentáculos das camadas da própria natureza orgânica do ser humano e entre arrebatadores arranjos de cordas e orquestrações, temos a sensação assustadora de sussurros de
oceanos, ventos metálicos vindos da nossa própria mente, horizontes que soluçam, noites longas e rios que cortam nosso interior nos perdendo nas próprias camadas de nossos delírios cotidiano e do nosso eu primordial.

Amnesiac é vanguarda é confuso, belo, áspero, frio, emocional, arrebatador, textualizado e texturizado na própria essência da arte; a de nos enriquecer com sua inesgotável plenitude e nos instigar, incomodar, nos confrontar com nós mesmo e com o mundo.


Saímos desse curto disco, desse pequeno artefato monolítico sugados, arremessados em nós mesmos ou o mais longe de nós mesmos... Isso para quem se propõe a mergulhar no tempestuoso universo existencialmente sonoro de Amnesiac.

Capa

Para ouvidos entorpecidos por: Alice Coltrane, Klaus Schulze, aphex twin

18.6.10

15.1.10

Crítica/ Kid A



Como as décadas finais de pelo menos dois séculos anteriores, os anos 1990 foram marcados por uma retrospectiva dos 90 anos anteriores, aglutinando em células compactas de conhecimento
tudo aquilo que a centena de anos completa ao final da década quis dizer pausadamente. Mas a década que encerrou-se no final do ano passado foi caracterizada por outros sabores: a ironia e o excesso de informação. Associadas, estas duas qualidades despem a grande verdade sobre a sociedade capitalista às vésperas do novo milênio, um paradoxo em escala planetária que nos emburrece à medida que mais aprendemos. O saber está no ar, mas ninguém está interessado em mostrar como usá-lo.
Na música pop, estas características foram detectadas pela primeira vez pelo U2. Embora ecos destas qualidades já viessem cantando os 1990 por caminhos alternativos na década anterior (como os discos Paul's Boutique, dos Beastie Boys; Pills'n'Thrills and Bellyaches, dos Happy Mondays; e Into the Dragon, do Bomb the Bass), foi apenas com Achtung Baby que elas se encontraram com o teor que filtrou a década. Ali estão a paixão pelo virtual frente à realidade ("Even Better than the Real Thing"), referências à história do rock ("Who's Gonna Ride Your Wild Horses?", "One"), paranóia ("The Fly") e um misto de expectativa com esperança ("Zoo Station"). "Você? Você estava falando do fim do mundo", debochava Bono enquanto mudava radicalmente o visual de sua banda, abandonando a pose de sacerdotes do rock e entrando num terreno estranho à sua antiga religião: a música eletrônica, um carnaval de ritmos e cores fundido com o preto e branco ríspido do fotógrafo Anton Corbijn. O disco de 1991, no entanto, não funcionava sozinho. Vinha acompanhado de uma extensa turnê dividida em três fases (Zoo TV, Zooropa - que acabou virando disco - e Zoomerang), que assistia a banda entre dezenas de monitores de TV e automóveis pendurados no palco, numa clara alusão à deselegância burra pré-colapso do capitalismo. Numa fantasia de caubói prateada, Bono rasgava notas de dólar enquanto, como pastor evangélico, anunciava que teve "uma visão": "TELEVISÃO!", berrava frente ao câmera que, do palco, registrava tudo pelas telas espalhadas no show. Juntos, a Zoo Tour e Achtung Baby deram o tom "rir pra não chorar" que acentuou-se nos anos 90.

A ironia virava fórmula e todas as mídias passaram a usá-la, primeiro o cinema, depois a TV, caindo no gosto popular e reverberando, assim, por todas as formas de comunicação. Falar a verdade era constrangedor demais - ou melhor, falso demais -, por isso era melhor fingir querer dizer justamente o oposto, finalmente, desta forma, atingindo seu objetivo. Passamos a ler textos que nos fingiam contar o contrário do que realmente queriam dizer, ouvir músicas que ridicularizavam o hábito de ser humano, ver filmes cujo verdadeiro tema só é desvendado da metade para o fim, contradizendo tudo que havia sido visto desde o começo. A propaganda passa a se ridicularizar na tentativa de ganhar crédito com o consumidor. Tudo é muito falso, todo mundo sabe; então porque não assumimos falsamente esta falsidade? Era isso que a ironia nos anos 90 significou: uma espécie de afirmação de identidade cultural às avessas, corrompendo nosso entendimento da realidade numa mão dupla, que ao mesmo tempo que acende uma vela pro sim (afirmando algo), acende outra pro não (ridicularizando aquilo que está sendo afirmado, simultaneamente). Sem um, nem outro, caímos na década do "tanto faz", em que as pessoas passaram a fazer exatamente o que o capitalismo queria, plugando-se às necessidades consumistas como se estas fossem responsáveis pelo bem estar espiritual - não material. Até Alanis Morrissette, em seu maior hit, perguntou: "Não é irônico?".

É neste cenário que o Radiohead surge como força disposta ao desequilíbrio. O grupo surgiu na Inglaterra no começo dos anos 90, mas só conseguiu fazer sucesso nos Estados Unidos, graças ao hit "Creep" (do LP Pablo Honey, de 93), ganhando primeiro o público, depois a crítica americana. "Você é tão fucking especial", sussurrava o vocalista Thom Yorke, "mas eu sou uma coisa, sou um esquisito". Só ganhou algum reconhecimento em seu país ao se levar mais a sério em The Bends, de 94, onde deixavam de falar de relações cotidianas para contemplar a sociedade moderna como um todo, num dos primeiros discos conceituais da década (tantos viriam depois). O grau de importância do grupo foi crescendo tão logo eles ganhavam intimidade como músicos, contemplando possibilidades diversas a partir do formato três guitarras (Yorke, Jonny Greenwood e Ed O'Brien), baixo (Colin Greenwood) e bateria (Phil Selway). Reinventando o rock clássico como fazia o indie rock americano na metade da década passada (com uma certa dose de ironia, claro), o Radiohead chamava cada vez mais atenção.

Até que atingiu seu auge com o clássico inato OK Computer, ácida descrição da sociedade capitalista sem ironia nenhuma. Ao reproduzir as normas do novo dia-a-dia sem se preocupar com sentido lírico (quase todas as composições do disco de 97 empilhavam referências e situações sem o comprometimento com o sentido), ia nos vestindo com a roupa do andróide paranóico que a vida consumista de hoje nos transformou. O disco também antecipava a invasão techno ao mercado que aconteceria naquele mesmo ano (com os discos Dig Your Own Hole, dos Chemical Brothers; e The Fat of the Land, do Prodigy), mas apenas nas entrelinhas - a produção sci-fi de Nigel Godrich deixava apenas um ar eletrônico no álbum. Sem contar a música em si, as progressões guitarreiras que mudavam a atmosfera das canções, dando uma dinâmica inédita ao som do grupo. Incensado pela crítica, OK Computer tornou-se padrão de excelência do rock dos anos 90.

E o que fazer depois disto? Depois que toca-se o céu, resta outro rumo senão a queda? O grupo passou a dedicar-se a uma turnê em que viu-se condicionado ao máximo do capitalismo que criticavam. Laureados como a mais importante banda de rock do mundo, o Radiohead tentou lançou um EP (Airbag / How Am I Driving?) e dois vídeos (a coletânea de clipes 7 Television Commercials e o homevídeo Meeting People is Easy) na tentativa de esgotar a responsabilidade em torno do próximo álbum. Em vão: cada produto lançado era recebido como prova que o sucessor de OK Computer vinha aí.

A solução seria eliminar os parâmetros conhecidos e assim o grupo começou a trabalhar: Thom Yorke desencantou-se com a melodia e passou a procurar alternativas rítmicas. Ed O'Brien queria um disco curto, enxuto, com canções simples e diretas. Colin preferia um álbum mais aprofundado na eletrônica, mas sem soar "techno". Kid A (EMI) é o produto das cinco (seis, contando o produtor Nigel) perspectivas de como o grupo fugiria do formato OK Computer.

O resultado é um disco árido, tenso, pós-rock, ermo - adequado para o ano 2000. Enquanto a quantidade de informações contida no álbum anterior dava um aspecto de poluição visual ao disco, o novo álbum elimina recursos visuais em favor de uma música sem rosto, sintética, ciborgue, futurista. Mas enquanto o futuro de OK Computer era hi-tech e bucólico, o de Kid A é vago e ameaçador, como se o espírito de máquinas mortas sobrevoasse por cima de desértica paisagem pós-apocalíptica.

O disco abre com teclados lunares que reverberam ondas eletromagnéticas que funcionam como uma canção de ninar por onde Thom Yorke pode improvisar apaixonadamente a letra. "Tudo está no lugar certo", ele canta ao começo do disco, repetindo os versos à medida que a canção se robotiza, cada vez mais. Entra a faixa-título, novos teclados (e caixa de música marcando o andamento, ao lado de uma bateria de bebop) descortinam o caminho para a entrada do vocal, um zumbido metálico que com certeza canta algo, mas em idioma indistinguível. A voz de Yorke é distorcida por um aparelho pré-histórico chamado Ondes Martenot (usado na trilha de Star Trek) e remete ao Menino A, o primeiro clone humano, como reza a mitologia radioheadiana.

Esta forma carinhosa que o grupo se refere à pioneira cópia de DNA humano posta em prática num laboratório (que poderia se chamar qualquer coisa mas é reconhecido com uma intimidade familiar) torna possível outro paralelo com Stanley Kubrick, o maestro cineasta cuja pompa e pulso firme à direção, já que OK Computer remetia instintivamente a 2001 (quando a máquina contra-ataca). No novo disco, o Radiohead contempla A.I., a ode não-filmada do cineasta à robótica, em que ele assume que as máquinas são herdeiras do legado humano, nossos descendentes. O grupo vai além e pensa no clone como descendente, a máquina perfeita projetada pela natureza e reprogramada de acordo com nossa vontade. Mas que vontade? Racional ou instintiva? O grupo deixa a resposta em aberto, por enquanto.

"The Nation Anthem" nos apresenta ao baixista da banda, Colin Greenwood, que puxa um groove funk pesado que escurece mais ainda à entrada de um time de metais reverenciando os graves pesos-pesados de John Coltrane. Em falsete, Yorke canta a vontade e a disposição de mudar, que aos poucos impregna o inconsciente coletivo: "Todo mundo por aqui / Todo mundo vai parar aqui / O que está acontecendo? / (...) / Todo mundo vai parar aqui / Todo mundo vai parar o medo / O que está acontecendo?". Ao citar literalmente o nome do mítico disco político de Marvin Gaye (What's Going On? - O que está acontecendo?), o grupo nos lembra que os tempos atuais são tão (ou mais) interessante que os anos 60 que inspiraram Gaye a se perguntar sobre a ordem mundial. O grupo prega decisões coletivas como a melhor forma de ir contra o individualismo robótico e passivo de OK Computer. Não é nenhum pouco diferente do que a simbólica luta anti-FMI / OMC / Banco Mundial que já nos deu notórias batalhas como em Seattle (no ano passado) e Praga (semana passada).

"How to Disappear Completely and Not Be Found" finalmente apresenta os violões, enquanto o vocalista nos lembra que o filme Matrix é na verdade uma metáfora da nossa situação atual: "Eu não estou aqui / Isso não está acontecendo", balbucia Yorke, enquanto o disco vai ficando cada vez mais lento, atingindo seu ponto máximo de estática na instrumental "Treefingers", entrando vagarosamente no terreno gelado das brancas vibrações eletrônicas de Brian Eno. "Optimistic" poderia ser irônica caso se referisse à sociedade (ainda mais com este título - "otimista"). Mas a paisagem que o grupo vê é pós-civilização e o otimismo a que se referem é um abandono das tecnologias, uma volta à natureza, onde a lei da selva - perfeita - reina soberana: "Os peixes grandes comem os pequenos", canta a letra sobre guitarras psico-metálicas que poderiam ter saído de LED ZEPPELIN III, "tente o melhor que você pode / O melhor que você pode é o suficiente". "In Limbo" parece apenas descritiva, ecos e guitarras dissipando conforme a paisagem é mostrada: "Estou do seu lado / Não há onde me esconder / Estou perdido no mar / Você está vivendo uma fantasia / Não se importe comigo", num novo ataque ao individualismo.

O ritmo marcial technopop que soa através de "Idioteque", marcando um compasso eletrônico por onde a sociedade do desperdício é cruelmente descrita, em vocais familiares (mas entrelaçados de uma nova forma) de Thom Yorke: "Deixa eu te dizer que você é o primeiro / Eu vou rir até minha cabeça sair / Eu vou engolir até explodir / Já vi muito / Já vi tudo / A era glacial está vindo". Descreve os seres humanos como dinossauros às vésperas da extinção, porque já ultrapassaram o limite de consumo de recursos naturais. O sotaque techno (proveniente da atual obsessão do grupo: a gravadora Warp) só ajuda a entender a crítica do grupo, que vai de encontro à letargia e o subsequente estado de automação que o ser humano aos poucos vai se submetendo - o ponto central de OK Computer. Em "Morning Bell", o grupo volta ao campo da melodia do último álbum (até certo ponto ignorado no novo disco) e como um aparelho de TV ligado durante um bocejo matinal despeja informações de forma vaga e desencontrada - "Eu não conheço o assassino", "Onde você estacionou o carro?", "E todo mundo mente para mim", "Todo mundo mente nas pesquisas" e o golpe final "Todo mundo quer estar lá / Todo mundo quer ser o mesmo / Andando, andando, andando, andando". A vida moderna é um tédio.

Kid A termina com a melancólica "Motion Picture Soundtrack": "Pare de mandar cartas / Cartas sempre queimam / Não são como os filmes / Que nos enchem de mentiras brandas", divaga o vocal triste e tímido do final, que enuncia um clima de felicidade mágica à Walt Disney (orquestras cheias de harpas dedilhadas) por baixo do tremor original do álbum. Estamos no meio de uma cratera, depois da bomba explodir. Esta bomba é o século 20, que se engole cada vez mais à medida que chega ao fim. Quando 2000 passar, zera tudo. É contemplando este futuro que Kid A sorri. É um sorriso estranho, não-humano, pensativo. Mas feliz e esperançoso, como há muito não víamos.



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Para ouvidos entorpecidos por: Can, Faust, Brien Eno